Hoje quase sem querer, tropecei num clique no blog do Jairo Marques: ”
Assim como você“. Jairo é formado em jornalismo pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e pós-graduado em jornalismo-social pela PUC-SP. Trabalha na Folha desde 1999, é cadeirante e escreve muito bem. Os texto são divertidíssimos e o alto astral que ele carrega nas palavras é contagiante. Reproduzo o primeiro texto (sem autorização ainda), sobre a viagem dele, seu amigo fotógrafo Gaudério, uma cadeira de rodas e uma mesa de bilhar na Amazonia. Depois do “jump” tem o resto do texto:
Minha História com Gaudério
Vivi com o repórter-fotográfico Antônio Gaudério, um dos mais renomados do país e um tipo daqueles que é impossível ficar cinco minutos ao lado sem dar uma boa gargalhada, uma das minhas histórias de blog mais engraçadas.
Coloco hoje aqui está aventura que trilhei com o ele, como uma homenagem, e para pegar um pouco da energia desse povo todo que vem diariamente visitar o “Assim como você” e emaná-la ao Gaudério, que sofreu um grave acidente doméstico, ficou em coma por quase um mês, e está na luta firme para se recuperar e voltar a tirar seus “retratos”.
As fotos que ilustram o post são todas desse admirável profissional do jornalismo!
A reportagem foi em Manaus. Íamos flagrar crianças e adolescentes se prostituindo em bares e boates da capital Amazonense. Assunto difícil e delicado, mas que foi temperado com o humor grandioso do Gaudério.
“Rapaz, que bom que viemos a Manaus. Vou comprar uma mesa de bilhar pra jogar com a minha filha”, disse meu companheiro de viagem.“Cê ta brincando, né, Gaudério? Como vamos levar um treco desses pra São Paulo?”, tentei argumentar. Gente, por que raios ele quis comprar aquele trambolho lá no Amazonas????
“É mais barato, aqui, Gaudério?”. “Nem é, não, mas eu prometi pra minha filha. Ela joga muito bem”.
Quando dei por mim. Lá estava, no hall do hotel, uma caixa imensa, pensa, imensa, chamando a atenção de todo mundo e enfeiando o local, metido a chique. Foi impossível colocar no apartamento dele, pois não cabia no elevador. Vocês devem estar pensando como eu entro nisso, né? ‘Carma’, aí, gente.
Cumprimos a matéria e, era hora de voltar a São Paulo. Quando o taxista chegou, se negou, evidentemente, a levar a minha cadeira de rodas e o trambolho do Gaudério.
“O senhor não pode se recusar a levar um rapaz numa cadeira de rodas. É crime, sabia?”, sentenciou meu companheiro que entendia “absolutamente tudo a respeito dos direitos de deficientes físicos”, fato que eu desconhecia. Se bem que, eu acho mesmo que ele esbravejou mesmo foi pelo presente da filha .
E lá foi o Gaudério e o taxista, que se rendeu à lei, arrumarem as malas, cadeira de rodas e pacotão dentro do Monsa caramelo. E “coube”, digamos que “coube”, como o porta malas aberto e a mesa de bilhar sobre o carro, amarrada. Coisa linda de se ver. Detalhe: chovia torrencialmente.
Já no aeroporto, as emoções aumentaram. Nosso vôo havia sido remanejado e tivemos de dormir horas sentados naqueles bancos que parecem rocha esperando a hora do embarque.
E lá fomos nós para o check in. O Gaudério tentava equilibrar, com pouco sucesso, a mesa de bilhar que, segundo ele, era “semi profissional”, no carrinho de bagagens.
“Senhor, sua bagagem está com um amplo excesso. Vai ter de pagar a diferença de ‘tantos’ dinheiros”, disse a atendente. Meu povo, num me ‘alembro’qual era a cifra, mas era uma quantidade de ‘roiaus’ que dava para comprar outra passagem, quase.
Mas, quem conhece o Gaudério, sabe que ele não perde viagem. “Nãaaaaaaao, senhora. Esse pacote ai é isento. É aparelho ortopédico dele aqui.”
A mulher olhou pra mim, como se dissesse: “Ah é???”…
Eu fiz cara do gatinho do Sherk nesta hora. “É seu mesmo, moço?”. Povo, eu não sabia nem como reagir. “É, sim. Uso essa armadura do robocope para dar uns passinhos, às vezes” (amigo tem que ser amigo até o fim, mesmo indo preso junto, né?).
Fomos liberados de pagar o excesso e seguimos viagem para São Paulo. A aventura estava quase no fim. Eu disse, quase.
Já na esteira, em Guarulhos, diversas bagagens não chegavam, inclusive a minha e, adivinhem? Sim, o pacotão revestido em papel pardo do Gaudério.
E ele reagiu rapidinho. “Não podem perder! Tem que achar. O Jairo não vive sem o aparelho ortopédico dele.”
E os despachantes se mobilizaram na busca. Depois de meia hora, veio a resposta da demora da chegada das malas.
“Pedimos desculpas, mas uma das bagagens ficou enroscada nos tubos que conduzem as malas”. Sim, era a mesa de bilhar semi profissional que pode ser comprada na 25 de março, em São Paulo, mesmo.
Depois de mais ou menos meia hora, conseguimos todos liberarmos nossas bagagens, inclusive meu inesquecível “aparelho ortopédico” inventado pelo grande Antônio Gaudério.

